A maioria dos investidores assume que o T1 tem maior yield porque tem preço de compra mais baixo. É uma lógica razoável — mas incompleta. Em Lisboa, em 2026, o T2 custa menos por metro quadrado do que o T1. Isso altera o cálculo de forma significativa, e a decisão entre as duas tipologias torna-se menos óbvia do que parece.

Este artigo compara as duas tipologias com os dados reais de 2026: rendas médias, preços de compra, yield bruto calculado e velocidade de mercado, por fonte e por zona.

O ponto de partida: os dados de 2026

Os dados de base para esta comparação vêm do estudo de DECO PROteste (janeiro 2026) e do relatório trimestral de rentabilidade do Idealista (Q1 2026):

Métrica T1 (Lisboa) T2 (Lisboa) Fonte
Renda média pedida €1.539/mês €1.899/mês DECO, jan. 2026
Renda média contratada n.d. €1.586/mês Confidencial Imobiliário, Q3 2025
Preço médio/m² (compra) €6.157/m² €5.572/m² DECO, jan. 2026
Yield bruto médio (Lisboa) 4,3% (média geral) Idealista, Q1 2026

Renda pedida vs. contratada: para o T2, o Confidencial Imobiliário regista uma renda contratada de €1.586/mês — €313 abaixo do preço pedido de €1.899/mês. Este desconto de negociação é real e deve ser usado no cálculo de yield em vez da renda de anúncio.

O paradoxo do preço por m²

O dado mais contraintuitivo desta comparação: em Lisboa, o T2 custa em média menos por metro quadrado do que o T1 — €5.572/m² contra €6.157/m², uma diferença de 9,5% no preço unitário. Isto acontece porque os T1 concentram-se em zonas mais centrais e premium, onde a procura de estúdios e apartamentos compactos é mais intensa.

Na prática, isto significa que quem compra um T2 está a pagar menos por cada metro quadrado de activo imobiliário — o que beneficia o yield quando a renda por metro quadrado do T2 é competitiva. O T2 não é apenas "mais caro porque é maior" — é, frequentemente, mais eficiente como activo de rendimento em zonas de preço moderado.

Yield bruto comparado: o cálculo real

Com os dados de 2026, calculamos o yield bruto para dois exemplos representativos — usando a renda contratada para o T2, por ser a mais próxima da receita real:

T1 (50m²) T2 (80m²)
Preço de compra €307.850 (€6.157/m²) €445.760 (€5.572/m²)
Renda mensal (contratada) €1.539 €1.586
Renda anual €18.468 €19.032
Yield bruto 6,0% 4,3%

O T1 ganha na comparação de yield bruto — mas a diferença tem uma explicação estrutural: o T1 de 50m² custa €137.910 menos do que o T2 de 80m². Com esse capital adicional, um investidor poderia complementar a estratégia de duas formas: reinvestir noutro imóvel mais pequeno ou manter liquidez para cobrir períodos de vacância.

O yield líquido — o que realmente entra no bolso

O yield bruto ignora custos que reduzem o rendimento real. Para obter o yield líquido, o investidor deve subtrair:

  • IMI: calculado sobre o Valor Patrimonial Tributário (VPT), tipicamente 0,3%–0,45% em Lisboa para imóveis urbanos
  • Condomínio: €50–€200/mês conforme o edifício
  • Vacância estimada: 5–8% da renda anual é um buffer conservador para Lisboa
  • Manutenção e pequenas reparações: 1%–2% do valor do imóvel por ano
  • IRS sobre rendas: 10% para contratos ≥3 anos com rendas ≤€2.300/mês (OE 2026)

Após estes custos, o yield líquido de um T1 em Lisboa situa-se geralmente entre 3,5% e 4,5%, e o de um T2 entre 2,8% e 3,8% — valores que refletem a compressão que a subida dos preços de compra tem provocado na rentabilidade lisbonense (MaxCidadela, 2026).

Velocidade de mercado e procura

O yield calculado parte do pressuposto de que o imóvel está arrendado. A velocidade com que cada tipologia encontra inquilino é, portanto, uma variável crítica.

Quem sai mais rápido do mercado

Em dezembro de 2025, o Idealista analisou as tipologias por velocidade de transação em Portugal: 41% dos T1 anunciados transacionaram em menos de um mês, contra 36% dos T2 e 35% dos T3 (Idealista, dezembro 2025). O T1 é, de forma consistente, a tipologia mais líquida.

Procura de arrendamento por tipologia

Em 2026, o T2 representa 19,5% da procura total de arrendamento em Portugal — a tipologia mais procurada em termos absolutos. Mas o T1 regista o crescimento de procura mais acelerado, com +319,8% YoY, reflectindo a pressão de estudantes e jovens profissionais incapazes de pagar um T2 nas principais cidades. A oferta de arrendamento em Lisboa caiu 13% no Q1 2026 face ao ano anterior, com 13% dos anúncios a serem arrendados em menos de 24 horas (Idealista, maio 2026).

O que isto significa em prático: em Lisboa, tanto T1 como T2 têm procura muito superior à oferta. A diferença de vacância entre as duas tipologias é marginal neste contexto — mas o T1 mantém uma vantagem na velocidade de recolocação quando o inquilino sai.

Como a zona altera o resultado

A comparação de yield muda radicalmente consoante a zona. A compressão do yield em Lisboa é um fenómeno concentrado nas zonas premium; nas zonas emergentes, a aritmética pode inverter-se.

Zona Melhor tipologia Referência de preço Notas
Alvalade T1 T1 renda média €2.325/mês Renda top da cidade; compra cara
Areeiro T1 / T2 T1 renda €1.904/mês Boa liquidez, acessos a metro
Arroios T2 T2 renda ~€2.139/mês Yield robusto; crescimento de procura elevado
Santo António Evitar (investimento) T1 compra €8.548/m² Preço de compra excessivo para yield; mais adequado à valorização de capital
Marvila / Beato T1 T1 a partir de €195.000 Maior yield potencial; zona emergente
Santa Clara T2 T2 compra €3.895/m² Preço de compra baixo; yield pode superar o T1 em zonas premium

Dados: DECO PROteste / Executive Digest, 2026.

O caso de Santa Clara ilustra um princípio importante: um T2 adquirido a €3.895/m² (vs. a média lisbonense de €5.572/m²) com uma renda competitiva pode gerar um yield superior ao de um T1 em Príncipe Real ou Misericórdia, onde o preço de compra é três vezes mais alto.

Qual escolher: framework de decisão

Não existe uma resposta universal. A decisão entre T1 e T2 deve ser guiada pelo perfil de investimento e pelas condições da zona específica:

T1 Maior yield bruto, maior liquidez, menor capital necessário Ideal para maximizar yield e rotatividade
T2 Maior cash flow absoluto, maior estabilidade de inquilino, menor custo por m² Ideal para perfil de longo prazo

O T1 favorece quem quer maximizar o yield percentual com capital limitado, em zonas de alta procura como Marvila, Beato ou Areeiro. O T2 favorece quem prefere estabilidade e cash flow absoluto — inquilinos familiares tendem a renovar contratos com maior frequência e a causar menor desgaste, o que reduz custos de manutenção e recolocação no médio prazo.

Numa zona emergente com preços de compra baixos — como Santa Clara a €3.895/m² — um T2 pode bater qualquer T1 premium em yield. O yield por zona em Lisboa deve ser o ponto de partida antes de decidir a tipologia.

Perguntas frequentes

T1 ou T2: qual tem maior yield em Lisboa?

Em 2026, o T1 tende a gerar um yield bruto ligeiramente superior — cerca de 6,0% vs. 4,3% num exemplo representativo. A diferença explica-se pelo facto de o T1 ter maior renda por metro quadrado, mesmo que o T2 custe menos por metro quadrado na compra. Mas a zona é decisiva: em zonas emergentes com preços baixos, o T2 pode inverter o resultado.

Qual a tipologia com maior procura no arrendamento?

O T2 representa 19,5% da procura total de arrendamento em Portugal — o mais procurado em termos absolutos. Mas o T1 tem o crescimento de procura mais acelerado, o que o torna um activo muito líquido em Lisboa, onde a oferta caiu 13% no início de 2026.

O T2 pode ter maior yield do que o T1?

Sim. Em zonas com preços de compra abaixo da média lisbonense, como Santa Clara (T2 a €3.895/m²), o yield pode superar o de um T1 em Príncipe Real ou Misericórdia, onde os preços de compra são proibitivos para fins de rendimento.

O IRS é diferente para T1 e T2?

Não. O OE 2026 estabelece uma taxa de 10% de IRS para rendas até €2.300/mês em contratos de arrendamento com duração igual ou superior a 3 anos. Tanto T1 como T2 típicos de Lisboa enquadram-se neste limiar.