Há dois valores que descrevem o preço de uma casa em Portugal, e raramente coincidem. Um é o que o vendedor pede no portal de anúncios. O outro é o que o perito avaliador independente do banco diz que o imóvel vale quando o comprador pede crédito à habitação. Em agosto de 2026, as medianas nacionais eram de 3.207 €/m² pedidos e 2.254 €/m² avaliados.
Para um investidor, esta diferença não é um pormenor. O banco empresta sobre o menor dos dois valores que tem à frente, pelo que uma avaliação baixa se traduz diretamente em mais capitais próprios a levar para a escritura. Bem lida, a mesma diferença mostra também onde os vendedores pedem mais do que os bancos estão dispostos a financiar.
Pontos-chave: A mediana da avaliação bancária do INE foi de 2.254 €/m² em agosto de 2026 (+14,7% num ano), cerca de 70% da mediana de 3.207 €/m² pedida no idealista. A regra de LTV do Banco de Portugal usa o menor valor entre preço de compra e avaliação, pelo que um crédito de investimento a 80% sobre um apartamento de 300.000 € avaliado em 270.000 € fica em 216.000 €, e não em 240.000 €. Ao longo do ano, as avaliações subiram ao dobro do ritmo dos preços pedidos.
O que medem a avaliação bancária e o preço pedido?
Medem coisas diferentes, e é por isso que divergem. O inquérito do INE à avaliação bancária na habitação apura a mediana do valor por metro quadrado atribuído pelos peritos avaliadores nos pedidos de crédito à habitação. Em agosto de 2026 chegou a 2.254 €/m², um máximo histórico, mais 14,7% em termos homólogos e mais 14 € do que em julho, com base em 32.650 avaliações (INE, publicado a 24 de setembro de 2026). Os apartamentos ficaram em 2.655 €/m² e as moradias em 1.610 €/m².
Os preços pedidos vêm dos anúncios. O índice de preços do idealista, noticiado pelo 24notícias do SAPO a 1 de setembro de 2026, situou a mediana nacional em 3.207 €/m² em agosto, mais 7,5% do que um ano antes. Abrange tudo o que está anunciado, incluindo casas que nunca vão ser vendidas a esse preço.
Por isso, o rácio de 70% entre os dois não é um desconto com que se possa contar. As avaliações só abrangem compras com crédito, que tendem para casas mais baratas e deixam de fora o segmento de luxo pago a pronto. Os preços pedidos incluem vendedores otimistas. E os dois usam bases de área diferentes. Leia o rácio como uma direção e uma ordem de grandeza, não como uma medida de sobrevalorização.
Já a evolução ao longo do tempo é útil. Em doze meses, as avaliações cresceram 14,7% e os preços pedidos 7,5%. Recuando a partir destas taxas, o rácio entre avaliação e preço pedido rondava os 65,9% em agosto de 2025 e os 70,3% em agosto de 2026. São as avaliações dos bancos que estão a aproximar-se dos anúncios, e não o contrário.
Em resumo: Em agosto de 2026, a mediana da avaliação bancária em Portugal era de 2.254 €/m² (INE), contra uma mediana de preço pedido de 3.207 €/m² (idealista), um rácio de cerca de 70%. Um ano antes rondava os 66%: as avaliações subiram 14,7%, enquanto os preços pedidos subiram 7,5%.
A diferença por região: maior no Algarve
A diferença é maior no Algarve e praticamente inexistente na região Centro. Comparar as avaliações de apartamentos do INE com as medianas regionais de preço pedido do idealista para agosto de 2026 dá um mapa aproximado das zonas onde os vendedores pedem mais do que os bancos financiam.
| Agosto de 2026 | Pedido (idealista) | Avaliação, apartamentos (INE) | Avaliação ÷ pedido |
|---|---|---|---|
| Algarve | 4.202 € | 3.010 € | 72% |
| Alentejo | 2.172 € | 1.771 € | 82% |
| Centro | 1.773 € | 1.750 € | 99% |
| Portugal (avaliação de apartamentos) | 3.207 € | 2.655 € | 83% |
A nossa leitura, com as ressalvas acima (a nível nacional, as avaliações de apartamentos ficam em 83% dos preços pedidos): na região Centro, os preços pedidos praticamente coincidem com o que os peritos avaliadores validam, o que sugere anúncios pensados para quem compra com crédito. No Algarve, os preços pedidos ficam cerca de 40% acima das avaliações de apartamentos. Parte disso explica-se pela composição da oferta, já que os imóveis no litoral, com vista para o mar e potencial para alojamento local, são muito anunciados e pouco financiados. A outra parte são vendedores a apontar para compradores a pronto e estrangeiros.
Para quem investe com crédito, a conclusão prática é a mesma num caso e no outro. Quanto maior a diferença na região, mais provável é que a sua avaliação fique abaixo do preço acordado. Não conseguimos comparar a Grande Lisboa com rigor, porque a região metropolitana de Lisboa do idealista inclui a península de Setúbal, enquanto o INE as divulga em separado. A nossa análise do investimento no Algarve explica porque é que os yields já estão sob pressão na região.
Como define a avaliação o montante do crédito?
Pelo denominador do LTV. A recomendação macroprudencial do Banco de Portugal define o LTV como o montante do crédito a dividir pelo menor valor entre o preço de compra e o valor de avaliação do imóvel dado em garantia. Os limites são de 90% para habitação própria permanente e de 80% para outras finalidades, o que inclui a compra para arrendar. A regra aplica-se desde julho de 2018.
Veja o efeito num apartamento ilustrativo de 300.000 € para investimento. Os números são nossos; teste os seus na calculadora de stress test do LTV.
| Cenário | Avaliação | Base do LTV | Crédito máximo a 80% | Capitais próprios para o preço |
|---|---|---|---|---|
| Avaliação acima do preço | 320.000 € | 300.000 € | 240.000 € | 60.000 € |
| Avaliação igual ao preço | 300.000 € | 300.000 € | 240.000 € | 60.000 € |
| Avaliação 10% abaixo | 270.000 € | 270.000 € | 216.000 € | 84.000 € |
Uma avaliação 10% abaixo do preço obriga a mais 24.000 € de capitais próprios, antes de IMT, imposto do selo e comissões. Uma avaliação alta, pelo contrário, não lhe traz nada, porque o banco continua a limitar a base ao preço. Toda a questão está nesta assimetria: o risco de avaliação só pesa para um lado.
Com que frequência acontece? Menos do que o rácio nacional de 70% faz supor. O relatório de acompanhamento do Banco de Portugal de 2025 nota que, nos créditos efetivamente concedidos, a avaliação fica em média acima do preço de compra, e é por isso que as várias medidas de LTV andam muito próximas. Em 2024, o LTV médio ponderado dos novos créditos foi de 69%. Os negócios que chegam a ser financiados são, por seleção, aqueles em que a avaliação não ficou abaixo do preço.
Há mais um pormenor que conta para quem pensa ficar muitos anos com o imóvel. Na monitorização dos créditos em curso, o mesmo relatório usa apenas o valor de avaliação a partir do segundo ano do empréstimo, pelo que é a avaliação, e não o que pagou, que passa a servir de referência para a sua alavancagem. O nosso guia do LTV mostra como a alavancagem se reflete depois no DSCR e no cash flow.
Os seus direitos sobre a avaliação do banco
Tem mais do que a maioria dos compradores usa. O artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 74-A/2017, o regime do crédito à habitação, fixa as regras. A avaliação tem de ser feita por um perito avaliador independente registado na CMVM. O banco tem de lhe entregar uma cópia do relatório no prazo de dez dias a contar da sua receção. Se foi o cliente a pagá-lo, o relatório é seu.
- Pode contestá-la. Pode reclamar por escrito, e o banco tem de dar uma resposta fundamentada.
- Pode pedir uma segunda avaliação. A lei permite ao consumidor solicitá-la.
- Pode levá-la a outro banco. Um relatório com menos de seis meses, pedido por uma instituição de crédito, pode ser usado noutra. O banco só pode recusar um relatório com mais de três meses se o mercado tiver mudado e, se rejeitar um relatório válido, paga a sua própria avaliação.
Quem paga? A comissão de avaliação entra no custo total do crédito, e os bancos podem cobrá-la além da comissão de dossiê. Na prática, paga o cliente, seja o crédito aprovado ou não, e uma segunda avaliação pedida pelo cliente também fica a seu cargo, como explica o guia da Literacia Financeira sobre a avaliação do imóvel. Pergunte o valor antes de avançar com o pedido.
Como deve o investidor usar a diferença numa proposta?
Como argumento, e antes de ficar vinculado. O erro mais comum é assinar o contrato-promessa com um sinal elevado e só depois saber quanto o banco acha que o apartamento vale. Três hábitos evitam-no.
- Verifique primeiro a diferença na região. Divida a mediana mais recente da avaliação bancária do INE para a região e a tipologia pelo preço pedido por m² (em agosto, a nível nacional, os T1 estavam em 3.369 €/m², os T2 em 2.738 €/m² e os T3 em 2.273 €/m²). Um rácio muito abaixo do habitual na região (ver tabela acima) é um sinal de alerta antes mesmo da visita.
- Obtenha a avaliação antes do sinal, ou condicione o sinal à avaliação. Pergunte ao banco se consegue avaliar o imóvel antes da assinatura do contrato-promessa. Se não for possível, negocie uma cláusula que devolva o sinal se o crédito for recusado ou reduzido por causa da avaliação, e peça a um advogado que a redija.
- Use uma avaliação baixa para renegociar, não para desistir por reflexo. Um profissional registado na CMVM que avalie o apartamento 10% abaixo do preço é um argumento forte. Mas as avaliações assentam em comparáveis conservadores, por isso confirme os preços de venda recentes por m² com o nosso método do preço por m² e a renda que o imóvel consegue obter antes de concluir que o vendedor está errado.
Há também uma oportunidade do outro lado. Os anúncios com preço próximo, ou abaixo, dos valores de avaliação habituais na zona são aqueles em que quem compra com crédito pode avançar depressa, sem surpresas nos capitais próprios. É um dos sinais que acompanhamos no nosso modelo de análise de imóveis subavaliados, a par do tempo no mercado.
O nosso veredicto: trate a avaliação como o preço sobre o qual o mercado está disposto a emprestar, e o preço pedido como a posição de partida do vendedor. Em 2026 os dois estão a convergir, mas no Algarve e noutros imóveis de luxo no litoral a diferença continua grande o suficiente para custar a um investidor alavancado dezenas de milhares de euros em capitais próprios adicionais. Faça essas contas antes de assinar o que quer que seja.
Este artigo é informação geral e não constitui aconselhamento financeiro, fiscal ou jurídico. Confirme as condições do crédito com o seu banco.
Fontes
- INE, Avaliação bancária na habitação aumentou 14,7% em termos homólogos, agosto de 2026, publicado a 24 de setembro de 2026, consultado em 2026-10-20, https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=770548959&DESTAQUESmodo=2
- RTP / Lusa, Avaliação bancária da habitação bate recorde de 2.254 euros/m2 em agosto (detalhe regional e por tipologia do INE), consultado em 2026-10-20, https://www.rtp.pt/noticias/economia/avaliacao-bancaria-da-habitacao-bate-recorde-de-2254-eurosm2-em-agosto_n1767443
- SAPO 24notícias, Preços das casas sobem em agosto (índice de preços do idealista, agosto de 2026), 1 de setembro de 2026, consultado em 2026-10-20, https://24noticias.sapo.pt/atualidade/artigos/precos-das-casas-sobem-em-agosto
- Banco de Portugal, Acompanhamento das Medidas Macroprudenciais em Portugal, março de 2025, consultado em 2026-10-20, https://www.bportugal.pt/sites/default/files/documents/2025-03/Relatorio_acompanhamento_medidas_macroprudenciais_Portugal%202025_versao_final.pdf
- Banco de Portugal, Decreto-Lei n.º 74-A/2017 (versão consolidada), artigo 18.º, consultado em 2026-10-20, https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/legislacoes/447011722_4.doc.pdf
- Literacia Financeira, Avaliação do imóvel no crédito à habitação (fonte secundária), consultado em 2026-10-20, https://www.literaciafinanceira.pt/artigos/avaliacao-imovel-credito-habitacao
Perguntas frequentes
O que acontece se a avaliação bancária ficar abaixo do preço de compra?
O crédito encolhe. A medida macroprudencial do Banco de Portugal calcula o LTV sobre o menor valor entre o preço de compra e o valor de avaliação. Num apartamento para investimento de 300.000 € avaliado em 270.000 €, um limite de 80% permite 216.000 € em vez de 240.000 €, pelo que precisa de mais 24.000 € de capitais próprios.
Qual é o valor médio da avaliação bancária da habitação em 2026?
O INE apurou uma mediana nacional de 2.254 € por m² em agosto de 2026, mais 14,7% do que um ano antes. Os apartamentos foram avaliados a 2.655 € por m² e as moradias a 1.610 € por m². O inquérito abrange as avaliações feitas no âmbito de pedidos de crédito à habitação.
Posso pedir uma cópia do relatório de avaliação do banco?
Sim. Nos termos do artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 74-A/2017, o banco tem de lhe entregar uma cópia, o perito avaliador tem de estar registado na CMVM, e o cliente pode reclamar por escrito ou pedir uma segunda avaliação. Um relatório com menos de seis meses pode, em regra, ser usado noutro banco.
Uma avaliação baixa justifica baixar a proposta?
É um indício, não um veredicto. Um perito avaliador independente, registado na CMVM, que avalie um apartamento 10% abaixo do preço dá um argumento forte para negociar, sobretudo a quem compra com crédito. Mas as avaliações assentam em comparáveis conservadores, por isso confirme vendas recentes e a renda possível antes de concluir que o vendedor está errado.